Por João Dias – S+I
Meditação Martinista para o limiar do ano de 2026
31 de dezembro de 2025.
No interior da tradição Esotérica existe uma pergunta que pouco é formulada em voz alta ou dentro de artigos e livros, mas que surge inevitavelmente na consciência de todo iniciado sincero à medida que o caminho avança. No entanto, somos convidados imitarmos o Filósofo Desconhecido, evocando o espírito do antigo e atemporal Círculo de Saint-Martin, que outrora, trocavam correspondências para discutirem assuntos de cunho filosófico e espiritual, encontrando respostas em conjunto através de uma cadeia de união buscando um ideal comum: a libertação da prisão material e o retorno a Unidade.
Portanto, a pergunta que pode surgir à medida que avancemos na senda pode ser desconfortável à primeira vista, porem indispensável para saciar a dúvida incessante do ego. Se a Reintegração é universal, se todos os seres emanados retornarão infalivelmente à Unidade, por que alguns parecem ser chamados a uma consciência dolorosa da separação enquanto outros vivem com relativa leveza dentro do mundo caótico? Por que o despertar, quando ocorre, vem acompanhado não de júbilo, mas de peso, solidão e estranhamento em relação à vida comum?
“Os contrastes tornam-se mais aparentes à medida que são conhecidos” – dizem os Mestres do Passado no decorrer de nossos estudos.
Talvez, seja desse estranhamento em relação a vida que muitos afirmam que a “Ignorância é uma benção”. Mas a que custo?
Essas questões não pertencem ao campo psicológico nem moral. Ela emerge quando o pensamento já ultrapassou o nível da crença e se deslocou para o plano do Ser. Trata-se de uma inquietação metafísica, tão antiga quanto a própria definição dos sistemas esotéricos, e que atravessa o Martinismo, a Gnose, o Vedanta, o Tantra e tantas outras correntes até mesmo que não possuem definição, sob linguagens distintas. Porque as questões ontológicas surgem com o surgimento do ser humano, ainda que um entre milhares questione ou formule explicações para a Realidade em que vive, sempre esteve presente no espírito humano a centelha da inquietação.
A sabedoria Martinista da Reintegração, tal como formulada por Martines de Pasqually em seu Traité de la Réintégration des Êtres, é clara ao afirmar que a Queda não é definitiva e que nenhum ser emanado permanecerá eternamente separado de seu Princípio. O erro, o afastamento e a desordem pertencem ao domínio do tempo e da manifestação, não ao Absoluto onde nada existe. A obra divina não fracassa. Nessesentido, o Martinismo nunca foi pessimista nem dualista em sentido radical. Sempre nas entrelinhas encontramos uma expressão de Unidade Universal sem distinção ou condenação. Houve erro, mas há reparação. Mesmo que durem séculos, o Absoluto retomará a Ordem Inicial independente de fé ou crença nele.
Entretanto, seria um equívoco grave interpretar essa certeza metafísica como uma uniformidade de percurso. Pasqually jamais ensinou que todos despertam da mesma maneira, no mesmo ritmo ou com a mesma função. Ao contrário, sua doutrina distingue implicitamente entre aqueles que vivem submetidos às potências do mundo caído e aqueles que, despertos para sua condição, são chamados a operar conscientemente a reparação. Algo deve ser fixado em nossas mentes: todos retornam, mas nem todos participam ativamente do processo de retorno. Essa distinção não é moral tampouco hierárquica no sentido profano; ela é funcional.
Jean-Baptiste Willermoz, ao estruturar o Regime Escocês Retificado, preservou essa visão com grande rigor. O eleito, no sentido Martinista, não é aquele que “se reintegra” antes dos outros, mas aquele que assume uma carga específica dentro do drama cósmico. Ele vive no mundo, mas não está em contentamento com ele. Não porque o rejeite, mas porque percebe sua fratura interna. Essa percepção não traz conforto; traz responsabilidade. É precisamente essa lógica que se encontra velada nas palavras do Cristo em Mateus capítulo 13, quando fala do semeador, das terras diversas e do crescimento desigual da semente.
A Palavra, que é o Princípio vivo, não um discurso, é lançada a todos sem distinção, mas não encontra em todos a mesma disposição ontológica. Há consciências endurecidas pelo caminho, onde a semente sequer penetra; há naturezas entusiasmadas, porém rasas, que recebem a luz com alegria inicial, mas a perdem quando o peso da existência e da prova se impõe; há aquelas sufocadas pelos cuidados do mundo, onde a centelha é lentamente
asfixiada pela dispersão e pelo apego a matéria. E há, finalmente, a terra profunda, que não é mérito moral, mas estado interior conquistado por longas purificações, onde a semente cria raiz, cresce em silêncio e frutifica de maneira desigual, conforme a função de cada um.
Quando o Cristo afirma que “a vós é dado conhecer os mistérios do Reino, mas a eles não lhes é dado”, Ele não estabelece privilégio, mas descreve uma realidade espiritual: nem todos podem sustentar o mesmo grau de luz sem se perderem. Do mesmo modo, a parábola do joio e do trigo revela que o campo, que é o mundo e também o homem interior, comporta simultaneamente forças de ordem e de desordem (as duas colunas), e que arrancar prematuramente o joio seria destruir também o trigo, pois a maturação espiritual exige tempo, paciência e discernimento. O eleito, nesse sentido, não é aquele que se separa dos outros, mas aquele que aceita crescer no meio (terceira coluna) da ambiguidade do campo, sem se arrogar o direito de julgar ou purificar o mundo antes da hora. Ele compreende que o Reino não vem com alarde, mas como o grão de mostarda que cresce invisivelmente, como o fermento que leveda a massa desde dentro, como o tesouro oculto que só é encontrado por quem aceita vender tudo o que possui interiormente.
Assim, Mateus capítulo 13 não descreve uma seleção moral entre homens bons e maus, mas a dinâmica secreta da Reintegração: a Palavra age em todos, mas só frutifica plenamente onde há profundidade suficiente para suportar sua exigência. E aquele que realmente ouviu, como o próprio Cristo adverte, já não se apressa em proclamar-se escolhido, pois sabe que ver e ouvir são, antes de tudo, um peso a carregar e não um título a exibir.
É nesse ponto que o Martinismo encontra a Gnose antiga. O gnóstico não é um rebelde por temperamento nem um pessimista por inclinação emocional. Ele é aquele para quem o mundo se tornou estranho demais para ser chamado de lar. A consciência da Queda não produz imediatamente libertação; ela produz sofrimento lúcido. O desperto sofre não por viver no mundo, mas por saber que ele não é o que deveria ser. Esse sofrimento não é um erro do caminho, mas um sinal de que a consciência atravessou um limiar irreversível que guiará o Homem de Desejo através das provas.
Essa condição do eremita, aquele que já não pertence plenamente ao mundo, mas ainda não retornou à Unidade, é comum a todas as tradições iniciáticas sérias. O que varia é a linguagem com que ela é descrita. No Advaita Vedanta (1), especialmente na formulação clássica de Shankara, a abordagem parece, à primeira vista, contradizer tanto o Martinismo quanto a Gnose, o que pode ser chocante à primeira vista. O Advaita afirma que nunca houve Queda, nunca houve separação, nunca houve exílio e tampouco nascimento e morte. Apenas Brahman é. Toda distinção e percepção de separação entre observador e observado pertence ao domínio da ignorância do Absoluto (avidyā).
Contudo, essa afirmação só é verdadeira quando vista a partir do ponto de vista do Absoluto Transcendente (o Reino da Imensidade Divina. A Realidade “antes do tempo”). O próprio Advaita reconhece níveis de realidade e graus de maturidade do buscador (adhikāra). Se todos pudessem simplesmente ouvir que já são Brahman e despertar instantaneamente, não haveria necessidade de caminho, disciplina, purificação ou transmissão e sabemos que isso não acontece. O Advaita não nega o processo; ele o dissolve apenas quando o processo se completa. Usado antes da hora, torna-se não libertação, mas negação prematura da experiência, o que pode causar um existencialismo materialista ou niilismo ontológico.
Neste ponto, gostaria de convidá-los a entrar num campo didático muito utilizado na tradição indiana que são os contos análogos as parábolas de Jesus Cristo onde o Mestre transmite Verdades de maneira sutil e acessível para os que possuem ouvidos para ouvir. Existe um conto clássico muito utilizado por mestres como Sri Ramakrishna para ilustrar exatamente esse ponto: a perigosa distância entre a compreensão intelectual do Absoluto e a realidade da experiência relativa.
O Conto do Elefante e o Discípulo
Havia um discípulo que estava estudando com um grande mestre de Advaita Vedanta. O mestre ensinava a verdade suprema: “Tudo é Brahman. Deus está em tudo e em todos.”
O discípulo, maravilhado com a ideia, saiu para caminhar pela aldeia, repetindo mentalmente: “Eu sou Brahman, aquela árvore é Brahman, aquele cão é Brahman”. De repente, um elefante desgovernado surgiu correndo pela rua principal. O condutor do elefante, gritava desesperadamente lá de cima:
— “Saiam da frente! O elefante enlouqueceu! Saiam do caminho!”
Todos correram, exceto o discípulo. Ele pensou: “Eu sou Brahman. O elefante é Brahman. Brahman não pode ferir a Brahman. Por que eu deveria fugir?”
O resultado foi desastroso. O elefante o agarrou com a tromba e o arremessou longe, deixando-o gravemente ferido e cheio de hematomas. Dias depois, o mestre foi visitá-lo e perguntou por que ele não havia saído do caminho. O discípulo, dolorido e confuso, disse:
— “Mestre, o senhor não disse que tudo é Brahman? Eu vi o elefante como Brahman e, por isso, não tive medo.”
O mestre sorriu calmamente e respondeu:
— “Sim, meu filho, é verdade que você é Brahman e o elefante é Brahman. Mas por que você não ouviu a voz do ‘Brahman Condutor’ que gritava lá de cima para você sair da frente?”
Este conto ilustra que o discernimento é uma grande chave de compreensão do mundo. Se você entende que é o Absoluto, saiba que o mundo não entende que o é, logo não são, neste espaço-tempo apenas um. Você pode enxergar um carro vindo em sua direção como produto da ilusão, mas o carro vindo em sua direção não possuí o discernimento de saber que ele mesmo é uma ilusão, logo ele é relativamente real e o atingirá. O mesmo vale para o corpo físico, que enquanto desempenha suas funções biológicas entende-se como real, logo é relativamente real até certo grau. Isso é muito importante compreender para não ocorrer entendimentos errôneos. O Mestre Liberto, enxerga esta realidade superior enquanto transita no mundo físico, equilibrado entre as duas realidades e vivendo-as com plenitude e sabedoria. É como Jesus Cristo exortou: “esteja no mundo, sem ser do mundo”. Em outras palavras, estejamos no mundo sem sermos o mundo.
Retomando nossa linha principal de estudo, é precisamente aqui que a tradição Tantra (2) se revela uma ponte mais orgânica entre o Martinismo e a Gnose. O Tantra tradicional, não o simulacro moderno reduzido a erotização, não nega o drama da manifestação. Ele o assume integralmente. Para o Tantra, a energia do mundo, simbolizada por Shakti, não é um erro a ser eliminado ou negado como o faz o Advaita, mas uma potência a ser reconduzida à sua origem consciente, Shiva (Consciência Absoluta). A queda não é algo a ser apagado; é o próprio material da reintegração. O laboratório do Alquimista.
Essa visão é profundamente compatível com a noção Martinista de reparação. A manifestação não é rejeitada, mas reconsagrada. O corpo não é negado, mas transmutado. O desejo não é reprimido, mas elevado. O sofrimento do Iniciado não é visto como punição nem como ilusão, mas como intensidade de processo. O caminho Tântrico, assim como o Martinista, não promete conforto. Promete integração.
É também por isso que muitos iniciados sentem uma crescente incompatibilidade com o ruído do mundo moderno. A dispersão, a hiper aceleração, o excesso de estímulos, a celebração vazia, o barulho constante, tudo isso se torna quase fisicamente agressivo para uma consciência que começou a se verticalizar. Esse fenômeno não é misantropia nem fragilidade emocional. Ele corresponde a uma reorganização interna profunda, frequentemente associada, nas tradições simbólicas, ao arquétipo de Saturno: o peso do tempo, a solidão fecunda, a exigência interior.
Autores diversos observaram com clareza que o homem diferenciado vive em estado de desajuste estrutural com o mundo moderno. Não por superioridade, mas por incompatibilidade. O mundo atual opera na horizontalidade da quantidade; o iniciado começa a operar na verticalidade do sentido. O que para muitos é diversão, para ele soa como dissipação e distração. O que para muitos é normalidade, para ele aparece como esquecimento e entorpecimento.
Nada disso contradiz a promessa da Reintegração Universal. Ao contrário, tenta esclarecer seu funcionamento. Todos retornarão, mas alguns são chamados a atravessar o processo com lucidez, carregando uma consciência que a maioria ainda não pode ou não precisa sustentar. Esses não são privilegiados; são pontes. Não descansam como as margens, porque existem para serem atravessados diariamente.
Neste último dia de um ciclo anual e da abertura de 2026, talvez seja esse o espírito mais justo a cultivar. Não a ansiedade por resultados, não a autoflagelação travestida de rigor, mas a fidelidade silenciosa à função que cada um recebeu em seu Coração. A Obra não avança pelo barulho, mas pela sutileza. Não pela pressa, mas pela permanência e constância. O caminho árduo do desperto apresenta desafios cada vez maiores; entendimentos vêm e vão como as ondas de um mar revolto. Mas, no fim, o mar é apenas oceano e o oceano é apenas um.
No fim, não importa a teoria, a explicação, o processo; mesmo que ele seja necessário, só o é para demonstrar como desapegar dele. O Guia do Iniciado ao ser aberto desvela um livro em branco, que deve ser escrito por ele mesmo e que ao final, entende-se que o verdadeiro livro era o que estava vazio das formas.
Não há caminhos verdadeiros a não ser o único caminho do Ser, aquele que está dentro de todos nós e se manifesta da maneira que o Plano da Existência temporária o designa para aquele momento.
O Desperto, entende que não há nada além de pura bem-aventurança e que o Pai não está longe, mas sim é o próprio Filho numa Unidade Misteriosa e enigmática.
O Tempo, sendo uma característica da ilusão prova-nos que é também irreal e que, não existindo, sendo simultâneo e Eterno, A Queda, o Despertar e A Reintegração é sempre no Eterno Agora.
Que o Misterioso Tempo complete sua volta. Que Saturno feche um círculo e abra outro. E que cada irmão e irmã permaneça no lugar interior que lhe cabe, sabendo que, mesmo quando o caminho parece solitário, ele nunca foi separado do Princípio.
Notas:
(1) O Advaita Vedanta é uma das principais escolas da filosofia espiritual indiana, sistematizada sobretudo por Adi Shankara (século VIII), cujo princípio central afirma a não-dualidade absoluta (advaita = “não dois”). Segundo essa doutrina, a realidade última é Brahman, consciência infinita, sem forma, sem divisão e sem segundo; o indivíduo (ātman) não é diferente dessa realidade, embora ignore essa identidade por efeito da ignorância metafísica (avidyā). O mundo da multiplicidade não é negado como inexistente no sentido comum, mas compreendido como realidade relativa, válida no plano empírico, porém não última. A libertação (moksha) não ocorre por reparação gradual de uma queda histórica, mas pelo reconhecimento direto de que nunca houve separação real entre o ser humano e o Absoluto. Por isso, o Advaita fala a partir do ponto de vista do fim do processo e não do seu desenvolvimento: ele descreve a verdade tal como é vista após a dissolução do ego e da identificação com o mundo. Tradicionalmente, reconhece-se que nem todos estão aptos a essa realização imediata, razão pela qual o próprio Vedanta admite vias preparatórias — ética, devoção, disciplina mental — antes do conhecimento supremo (Jñāna). Quando lido fora de seu contexto iniciático, o Advaita pode parecer negar o drama espiritual; quando compreendido corretamente, ele o transcende sem invalidá-lo, situando-o num plano relativo que se dissolve apenas no conhecimento direto do Absoluto.
(2) O Tantra designa um vasto conjunto de tradições iniciáticas originárias da Índia e do Tibete — tanto hindus quanto budistas — cujo princípio fundamental é que a libertação não se alcança pela negação do mundo, mas pela integração consciente da manifestação. Diferentemente das vias exclusivamente ascéticas ou intelectuais, o Tantra parte do reconhecimento de que a energia que sustenta o corpo, o desejo, a emoção e o tempo é a mesma energia divina quando religada à consciência. Em sua linguagem simbólica, essa reintegração é expressa pela união de Shiva (consciência absoluta, imóvel) e Shakti (energia criadora, dinâmica), cuja separação gera a experiência da fragmentação e cuja reunião consciente restaura a ordem interior. O erro, para o Tantra, não está na existência da multiplicidade, mas na energia esquecida de sua origem. Por isso, o caminho tântrico utiliza o próprio corpo, a respiração, o som, a imaginação simbólica e a disciplina ritual como instrumentos de transmutação, não como fins em si mesmos. Tradicionalmente, o Tantra é transmitido de modo gradual e reservado, pois intensifica os estados interiores e remove defesas psíquicas com rapidez; sem preparo ético e discernimento, pode conduzir à desorganização em vez da integração. Quando compreendido em seu sentido clássico, o Tantra aproxima-se profundamente da lógica martinista de reparação: a manifestação não é rejeitada, mas reconsagrada, e o mundo caído torna-se a própria matéria da reintegração consciente.
A Reintegração não falha.
A Queda não é eterna.
E o Silêncio também é ação.