Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (1486–1535) foi um dos pensadores mais complexos do Renascimento. Filósofo, médico, jurista e estudioso das tradições antigas, Agrippa ocupou um lugar singular na história do conhecimento: o de ponte entre o hermetismo clássico e o ocultismo moderno.
Em um período em que textos gregos, árabes e hebraicos voltavam a circular na Europa, Agrippa reuniu saberes dispersos — hermetismo, neoplatonismo, cabala, astrologia e filosofia natural — e os organizou em uma estrutura coerente. Sua obra mais conhecida, De Occulta Philosophia, não propõe magia como superstição, mas como um estudo das relações entre os diferentes níveis da realidade.
Para Agrippa, o universo é organizado em três planos interligados: o mundo material, o mundo celestial e o mundo intelectual ou divino. Essa visão deriva diretamente do pensamento hermético, especialmente da ideia de correspondência entre o microcosmo (o ser humano) e o macrocosmo (o universo). Assim, o homem não é um ser isolado, mas um ponto de interseção entre forças naturais, psíquicas e espirituais.
Sua maior contribuição para o ocultismo não foi a prática ritual em si, mas a ênfase na mente, na intenção e no conhecimento simbólico. Agrippa compreendia que símbolos, palavras e imagens atuam porque a consciência humana participa do mesmo princípio organizador da realidade — o Logos. A magia, nesse sentido, torna-se um diálogo entre a mente e a ordem do mundo.
Curiosamente, no fim de sua vida, Agrippa escreveu uma obra crítica (De Vanitate Scientiarum), questionando os limites do conhecimento humano. Longe de negar o ocultismo, esse gesto revela sua maturidade intelectual: reconhecer que todo saber, sem consciência ética e interior, se torna vazio.
A influência de Agrippa atravessa séculos. Seu pensamento fundamentou o ocultismo renascentista, inspirou ordens esotéricas modernas e contribuiu indiretamente para a psicologia simbólica contemporânea. Mais do que um “mago”, Agrippa foi um filósofo da relação entre mente, símbolo e realidade.
Seu legado permanece atual: compreender que o verdadeiro poder não está no ritual externo, mas na lucidez interior que reconhece o sentido oculto das coisas.