ELIPHAS LEVI,
O MESTRE DE TODOS OS OCULTISTAS MODERNOS
Por Anne Relizane
Eis o homem que relançou a Magia no Século XIX.
Poetas como Victor Hugo, Baudelaire e Rimbaud sofreram a sua influência. Todos os ocultistas franceses e estrangeiros modernos o reverenciam. Ele está na origem da doutrina de numerosas Sociedades Secretas e as suas obras são continuamente referenciadas. No entanto, quem conhece realmente o personagem que se esconde sob o curioso nome de Eliphas Levi?
É com efeito um estranho e raro homem!
O seu verdadeiro nome é, simplesmente Alphonse-Charles Constant e é filho de pais muito modestos – o seu pai era sapateiro em Paris, na atual rua da Ancienne-Comédie – a 8 de Fevereiro de 1810, sob o signo de Aquário.
Como era extremamente dotado para os estudos, os seus pais colocaram-no no pequeno Seminário de Issy. Alphonse era uma criança estudiosa, se bem que, muitas vezes, sonhadora. Levou muito a sério os seus estudos laicos e religiosos, recebendo o Diaconato a 19 de dezembro de 1835, com a idade de 25 anos. O seu caminho futuro parecia completamente traçado, pois que um ano mais tarde seria ordenado Sacerdote e com certeza viria a ser, rapidamente, Cura de minúscula paróquia.
Mas isto era menosprezar os encantos de uma jovem de nome Adèle, frequentadora das aulas de catecismo onde Alphonse ensina. O Mestre apaixonou-se pela aluna que lhe correspondia… e o futuro Abade teve de abandonar o Seminário. E para desespero da família – a mãe morrer de desgosto – teve que procurar meios se subsistência. Ele fará um pouco de tudo, desde explicador num pensionato, a autor de canções, desenhador e mesmo comediante. A sua ligação com Flora Tristan, escritora e feminista, introduziu-o nos salões literários – onde encontrou Balzac e Alexandre Dumas, - bem como nos meios políticos de esquerda.
Três encontros irão orientar a sua vida. O primeiro, com um escritor versado em Ciências Ocultas, Alphonse Esquiros que acaba de publicar um “best-seller”, “O Mágico”. O que teve com um curioso Mago chamado Ganneau, uma espécie de profeta que afirma ser a reencarnação de Luís XVII, sendo a sua esposa Maria Antonieta e que discursava, vestido de mulher, sobre a “Criança do Universo”. Finalmente, o encontro com o professor de matemática e ocultista, Hoehne, Wronski, inventor da máquina de profetizar.
Alphonse Constant, contudo, e apesar dos novos amigos, mantém a nostalgia da vida religiosa e decide retirar-se para a abadia de Solesmes. Não permanecerá aí mais do que um ano, tempo suficiente para frequentar bastante a biblioteca, onde descobre as doutrinas dos antigos Gnósticos, as dos padres da Igreja Primitiva e dos grandes místicos.
Quando volta ao mundo exterior, dedica-se à literatura e publica a sua primeira obra, um panfleto virulento batizado “A Bíblia da Liberdade” que o governo julga sedicioso e manda apreender. Constant é condenado a onze meses de prisão. Aproveita esse tempo para frequentar de novo a Biblioteca e, aí, descobrir as obras de um ocultista que o fascina: Swedenborg.
Quando sai da prisão encontra os seus amigos na condição de discípulos de Saint-Simon ou de Fourier, frequenta os clubes políticos, acima de tudo, inclina-se resolutamente para as Ciências Ocultas e, em particular, para a Magia. Em 1856 publica a sua primeira obra iniciática” “Dogma e Ritual da Alta Magia”, sob o pseudónimo de Eliphas Levi Zahed, a tradução hebraica do seu nome.
Foi no seminário que Alphonse aprendeu hebraico e não deixará, a partir daí, de se manter apaixonado pelos mistérios da Kabala. Em 1854, misteriosamente chamado por vagos Superiores Desconhecidos, segundo ele, irá em viagem a Londres, onde encontrará um Rosacruz britânico, Sir E. Bulwer-Lytton, que lhe conferirá o “Baptismo da Luz”. No Templo Rosacruz de Londres, depois de um retiro de 21 dias e um completo jejum de 8, Alphonse irá ter uma extraordinária visão. Uma jovem misteriosa conduzi-lo-á a um quarto de uma pequena torre com as paredes coberta de espelhos. Por mobília, havia um altar de mármore, um tripé de couro e uma pele de carneiro. Constant caiu de joelho e, durante doze horas seguidas invocou, com a ajuda de encantamento mágicos, o grande filósofo grego fazedor de milagres, Apollonius de Tyane. Subitamente, a sombra de Apollonius apareceu-lhe, vestida com uma espécie de grande lençol cinzento. O homem e a aparição conversaram durante muito tempo, telepaticamente. Em determinado momento, o fantasma tocou o braço do Mago, tendo-lhe esta parte do corpo ficado paralisada durante vários dias. “Em seguida, escreveria Eliphas Levi, apercebi-me de que qualquer coisa do outro mundo tinha passado para mim, nunca mais fui triste nem alegre, e passei a experimentar singular atração pela morte”. Mais tarde fez reaparecer Apollonius, a fim de saber através dele importantes segredos da Kabala. Foi no seguimento desta experiência que Alphonse-Charles Constant, o quase Abade, se tornou Eliphas Levi, o Mago.
No pequeno apartamento que possuía no “bulevard” de Montparnasse, recebia os seus discípulos, a maioria das vezes vestido de monge. O que aumenta ainda a fascinação da sua face fronte alta e desguarnecida, prolongada por longa barba, iluminada por um olhar por vezes misterioso e longínquo.
Eliphas Levi, que pretendia ser a reencarnação de Rabelais, dava lições de Magia e de kabalismo. Ensinava o Tarot, o Magnetismo, a Alquimia, a Quiromancia. Era também, amiúde, curandeiro e obtinha muitas vezes êxito onde os médicos tradicionais falhavam. Vinham igualmente vê-lo a fim de se fazerem exorcizar, desenfeitiçar, ou para retirar ensinamentos de sonhos premonitórios. Os seus verdadeiros discípulos eram, contudo, pouco numerosos e as relações com ele faziam-se sobretudo na forma epistolar. Entre os discípulos, Eliphas Levi tinha também bastantes mulheres. Uma das mais assíduas era a filha de Théophile Gautier, Judite, casada com Catulle-Mendès e que adorava fazer do Mago uma das atrações do seu salão.
Entretanto, Eliphas Levi continuava a publicar obras de Iniciação Oculta, num estilo que fará a admiração de muitos historiadores. Entre estes, Michet que declara: “Quando conheceu a Luz Iniciática, Eliphas Levi escreveu, sincopadamente, cinco dos seis livros onde a mais profunda Ciência se exprime na linguagem de um artista consumado”.
Em 1800 publica “A Historia da Magia”, e em 1862 a “Ciência dos Espíritos”. Em cada livro vai tentando demonstrar, sucessivamente, que a Magia é uma Filosofia, uma Ciência e uma Religião e que ela é a síntese de uma doutrina coerente que nos é transmitida desde a mais remota antiguidade. O Esoterismo, a Kabalah, a Alquimia, o Tarot, o Magnetismo e os Ritos Ocultos de certas Religiões estão ligados entre si. Por outro lado, o Mago desconfiava das manifestações – a seus olhos, mais histéricas que sobrenaturais –, tais como mesas que se movem ou casas assombradas.
A guerra de 1870, com o seu cortejo que privações e de dramas, abalou a saúde já afetada de Eliphas Lévi. Só lhe faltou morrer de fome. E nunca mais, verdadeiramente, recuperou a saúde. Veio a morreu, na solidão e na miséria, a 31 de Maio de 1875. Foi sepultado no cemitério de Ivery.
Dez anos mais tarde o famoso Papus, ao redescobrir Eliphas Levi, entrou na posse da sua espada mágica e de apontamentos relatando as suas experiências ocultas em Londres, e ainda de desenhos representando essas aparições mágicas. Obras inéditas do Mago que, até ao fim, tinham -se mantido rodeadas de segredos, foram publicadas, como “A chave dos grandes mistérios”, em 1897. E os discípulos póstumos floresceram: Stanislas de Guaita, Joseph Péladan, a senhora Blavatsky, Aleister Crowley.
Alphonse-Charles Constant, o Abade falhado, estava esquecido, mas Eliphas Levi entrava no panteão do Ocultismo.
Fonte: Jornal “Nostra” (Nostradamus), n.º 14, 1977.